19.12.11

Alunos vs Professores

No ano passado, quando vim para São Paulo a primeira vez, sofri um choque enorme, como devem calcular. Desde a cidade até as pessoas tudo foi novidade para mim, e foi bem difícil me acostumar a autocarros apinhados de gente, numa média de 4 pessoas por m2, à comida, que se baseia a feijão e carne quer ao almoço ou jantar (o extremo foi quando vi pessoas a colocar aquela colherzinha de feijão no topo da lasanha) e o clima, que esse então é de loucos (saía de casa ao inicio da tarde como quem vai para a praia e passados 15min já tinham baixado uns 10ºC e a chover). No entanto, isto são pequeninos choques diante das situações com as quais me deparei a chegada da famosa USP - Universidade de São Paulo. Lembro-me da minha primeira aula como se fosse hoje, acreditem que é algo impossível de esquecer, e que mesmo contando não sei se conseguem imaginar. Eram 8h30 da manhã e eu já estava sentada no meu lugar, nenhum "caloiro" gosta de chegar atrasada e ter 50 cabeças direcionadas para a porta e a conduzirem-nos até ao lugar. O professor chegou e eramos apenas 10 na sala. Aos poucos começaram a chegar e lembro-me que o último chegou as 10h30, ou seja, já lá iam duas horas de aula e ainda entravam pessoas. Entre os alunos que estavam na sala uma média de 20% estava a dormir, arrisco-me mesmo a dizer que alguns ressonavam, e o professor ainda fazia piada sobre a situação: "hoje a aula nem tá chata, apenas 20% tão dormindo! Aula passada eram mais...". Entre pessoas que entravam, assinavam a lista de presenças e saiam, a miúdas que arranjavam as unhas dos pés durante a aula, outros que vendiam brigadeiros no decorrer da aula ou mesmo pessoas que faziam verdadeiros piqueniques durante a aula, foi a relação aluno vs professor que mais me impressionou. Tratam-se por tu, apelidos etc... Como o tempo fui-me acostumando e a determinada altura até já levava o meu cafezinho e bolachinhas para comer durante a aula, mas só. E a meu entender já estava a passar das "marcas"!
Quem conhece a realidade de ensino em Portugal entende o absurdo desta situação. Nunca, mas nunca algo era permitido nas escolas ou faculdades de lá, e quem diz Portugal diz Europa. No mínimo o aluno ia para a rua e nunca mais terminava o curso, pelo menos enquanto aquele professor não se reformasse.
Aparentemente esta situação é o sonho de qualquer aluno, mas aqui não é bem assim. A realidade que descrevi acontece em aulas de graduação, porque na pós (mestrado ou doutorado) já se entra noutro nível de respeito, e ainda que seja descontraído, vivesse um ambiente respeitável. O grande problema desta situação toda é que os alunos de graduação acostumam-se a este "bem bom", e quando chegam a pós, ainda vêm as coisas como  na graduação, mas a verdade é que nesta fase a exigência é bem maior! O que me tenho apercebido é que muitos alunos aqui, de inúmeras áreas com quem tenho discutido, acreditam que aluno de pós-graduação faz aquilo que o orientador manda e que a exigência desse trabalho relativo a graduação é o mesmo. E isso é errado!
Quando nos propusemos a fazer pós-graduação, temos que entender que é o nosso projecto, é o nosso nome que vai ser criado dentro da comunidade e que somos nós que vamos publicar. Quando o professor aceita nos orientar, é um favor que nos faz (ainda que o currículo dele também aumente), mas o interesse é nosso e somos nós quem temos que correr atrás.
Existem, então, dois tipo de orientadores: os "largados" que te deixam a fazer tudo sozinha/o, ou os "pressionadores" que não param de te "encher o saco" porque querem ver o trabalho feito, mesmo porque o nome deles também está em jogo. Por outro lado existem dois tipos de orientados: os que gostam de ter pressão, e que assim garantem bons resultados, ou os que gostam de trabalhar sozinhos (e esses não entendo porque querem orientadores se acham que conseguem fazer tudo sozinhos). O problema aqui (no Brasil) é que maioria dos alunos da pós são do segundo tipo, e quando lhe é exigido mais trabalho eles iniciam uma verdadeira batalha e muitos deles acabam mesmo por desistir!
Isto de ser professor não é fácil, e aluno também não, o que eu acho ridículo é que somos nós (alguns) que vamos continuar o legado dos professores e pesquisadores que existem hoje e que é a eles que devemos toda a nossa sabedoria (atenção que nem todos merecem este respeito), então porque esta luta entre pesquisadores principiantes e pesquisadores catedráticos? Eles têm alguma coisa a aprender conosco, é verdade, mas nós temos ainda mais a aprender com eles e ainda mais lhes devemos. No meu caso, como cientista que sou, é a ciência quem saí prejudicada com este desentendimento!
Não estamos no liceu, em que o professor é culpado da nossa falta de estudo, né? Tenham dó!
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