22.7.13

Conversas de ônibus

Hoje aconteceu-me algo raro aqui em São Paulo! O paulistano é um povo bem desconfiado e não conversa com qualquer um! Aqui vocês se sente meio deslocado e que todo mundo te olha como se você fosse bandido ou então nem olha, e aí você se sente bem pequenininho!
E mesmo aqui onde vivo, se tratando de um ambiente universitário, não existe aquele convívio noturno, nem de tarde de esplanada, como acontecia na minha época de estudante em Portugal. Mas hoje aconteceu algo que me fez chegar em casa com um sorriso no rosto e vontade de escrever esta pequena reflexão. Uma senhora (arriscando chutar uma idade de 40 anos) me perguntou onde ela precisava sair do ônibus para chegar a x rua! Eu expliquei que iria sair nesse mesmo lugar e que o meu destino final seria essa mesma rua... Aí ela perguntou de onde eu era, pelo meu sotaque (=D), e o que eu estava fazendo aqui.. enfim.. toda uma conversa de "elevador" sabe? Por cortesia retribuí as questões e aí ela me explicou que estava de visita à USP e que amanhã iria defender a sua tese de doutorado em Geografia. Obviamente perguntei a área e pronto... os metros de estrada seguinte desenrolou-se um explicação do seu trabalho.

Resumindo para vocês, a Edilene trabalhou numa pequena povoação residente na margem do Rio Negro em Manaus (capital do Amazonas). Fiquei sem perceber se se tratava de uma comunidade indígena, como é bem comum por lá, mas trata de uma população que vive em uma pequena reserva natural, decretada como tal depois de eles já viverem por lá algum tempo. Segundo o testemunho de Edilene, essa população vive deslocada e privada de saúde, de mercado, de eletricidade... enfim... é Amazonas né? Aí ela me contou que depois desse decreto, a população foi obrigada a se reorganizar e  planejar o seu território da melhor forma. Então, existia o setor de agricultura, de pesca, de caça, cada grupo com as suas funções, etc... apenas obedecendo a exigências do governo. Tratam-se de pessoas civilizadas (qualquer que seja o significado atual dessa palavra) com uma forte capacidade de organização mas sem qualquer apoio para tal. Então, Edilene tocou em um ponto crítico: a posição do governo em relação a essa mesma situação. Pelo que percebi do seu testemunho, o governo não está apoiando a população e apenas se limita a dar ordens do tipo: "aqui pode ser, ali não!" sem sequer explicar às pessoas o que está acontecendo e os reais motivos.
A verdade é que as dificuldades que hoje essa população enfrenta, são fruto de um não entendimento entre as partes! Ambas as partes querem beneficiar com o território em questão, mas nenhuma delas entende a parte da oposição. Enquanto a população já se manifestou como forte e capaz de se adaptar, o governo não dá a devida atenção à questão, no entanto, o governo pretende respeitar o espaço como reserva natural, que está certo, e mesmo assim continua deixando a comunidade beneficiar do espaço, mas parece que a população não parece entender a realidade de "reserva natural".

Este é um grave problema aqui no Brasil, em especial nesse estado, e quanto mais se mexe e remexe com assunto parece que a resolução está cada vez mais longe... Serão estas duas realidades assim tão distintas ao ponto não permitir uma coexistência?



Eu sei que esta assunto em nada tem a ver com moda ou beleza, mas achei tão comovente a forma como Edilene me explicou a situação e o seu emocionante envolvimento com esta comunidade que simplesmente não podia deixar que o cordão da sua mensagem fosse quebrado por mim...=D

Tentarei estar presente na sua defesa de doutorado e poder conhecer mais sobre a comunidade...=D Para quem ler isto e tiver interesse em assistir, será amanhã (dia 23/07) no prédio da administração da geografia pelas 14h, na cidade universitária da USP (informações cedidas pela própria).


XO
*Nazaré*

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